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Dona Lourdes: uma vida ofertada para Deus

Consagrada, catequista, secretaria e governanta: Lourdes teve uma vida discreta, ofertada a Deus e sendo grande colaboradora de Dom Emílio.

Padre Rodrigo A. Silva e Andrea Rodrigues | Terça, 05 Julho 2022 15:28
Dona Lourdes: uma vida ofertada para Deus

Dona Lourdes, como era carinhosa e amplamente conhecida Maria de Lourdes Menezes Sampaio, faleceu na madrugada do dia 28 de junho aos 93 anos de idade. Diagnosticada com embolia pulmonar, Lourdes estava internada desde o dia 26 no Hospital São Luiz  - Rede D’Or (Morumbi) para realizar o tratamento adequado, porém em pouco tempo o quadro clínico se agravou, necessitando ser transferida para a unidade de tratamento intensiva.

Nascida na pequena cidade de Ipuã, interior de São Paulo, dona Lourdes tem por origem uma família humilde e simples. Seus pais, preocupados em oferecer melhores oportunidades de estudos, mudam-se com os cinco filhos para a  cidade de Orlândia na metade dos anos 60.

Decidiu-se por uma vida consagrada, vivendo a beleza da pertença a Deus com seu carisma  e testemunhando a beleza do pertencimento a Deus, mesmo imprimindo em todas as suas ações sua identidade e personalidade.

Ainda muito jovem, passou a fazer parte de um Instituto Secular firmado na devoção à Mãe Rainha de Araraquara. Este Instituto era para leigas solteiras, que se consagravam através de votos pertinentes à vida religiosa.

Na paróquia São José, no centro de Orlândia, passou a se envolver nos trabalhos pastorais, chegando a ser catequista. O pároco, o padre Emílio Pignoli, era conhecido na região pelo seu dinamismo. Esta paróquia era considerada “modelo”, termo utilizado na época para as paróquias mais dinâmicas e vivas.

Monsenhor José Geraldo Segantin, da Diocese de Franca, recorda-se com carinho da catequista Lourdes: “eu fiz a Primeira Comunhão em 1967 e ela foi minha catequista, ali já era possível sentir todo o seu desprendimento e ardor missionário”.

De catequista, Lourdes se tornou coordenadora da Catequese de Primeira Comunhão e Crisma, e, pelo seu dinamismo, foi contratada como secretária paroquial pelo padre Emílio: "Fiquei ajudando nos livros de batizados e casamento e convivemos por uns 10 anos até eu ser admitido no Seminário Arquidiocesano de Ribeirão Preto. Foi um tempo de aprendizado e enraizamento da minha vocação, na minha formação o testemunho de fidelidade a à Igreja de dona Lourdes será sempre latente”, completa Monsenhor Segantin sobre sua estimada amiga.

A parceria com o padre Emílio havia dado certo: em 1976, Emílio foi nomeado pelo Papa Paulo VI bispo de Mogi das Cruzes. Cerca de três meses após sua instalação em Mogi, Dom Emílio precisava de uma pessoa de confiança e competência para ser a governanta do Palácio Episcopal. Lourdes, acompanhada de outras leigas consagradas, partiram para Mogi para ajudar Dom Emílio.

Em 1989, quando Dom Emílio foi nomeado bispo da recém-criada Diocese de Campo Limpo, novamente o acompanhou para enfrentar o novo desafio que teriam pela frente.

A intercessora

“Dona Lourdes no meu ponto de vista, exerceu na Diocese de Campo Limpo um ministério muito específico, que era o ministério da intercessão”, assim definiu a vida de dona Lourdes o padre Rubens Pedro Cabral, missionário Oblato de Maria Imaculada, que à época fora pároco da Paróquia Santo Eugênio de Mazenod, forania M’Boi Mirim. 

Durante mais de 10 anos padre Rubens orientava espiritualmente esta religiosa senhora, de modo a descobrir toda a riqueza que carregava consigo: “uma vida anunciada, uma vida generosa, vida no silêncio, na partilha, no cumprimento de suas tarefas sem se queixar, sem reclamar, sem se fazer condoer-se”, relembra. 

Fervorosa na oração, sempre soube que a intimidade com Deus é muito mais importante que as palavras vazias. A partir da sua primeira experiência com Deus, Dona Lourdes percebeu uma sede insaciável d’Ele e foi tomada por um desejo irresistível de dar sua vida por Ele, pela Igreja, pelos sacerdotes, pelas famílias.

Manteve sua rotina de orações e de dedicação à intercessão pelo próximo até seu último dia. Era comum encontrar Dona Lourdes, em sua casa, posicionada em frente à televisão assistindo a TV Aparecida, rezando o terço, acompanhando missas e outras orações.

Apesar das dificuldades próprias da idade e das enfermidades que surgiram, não se deixava esmorecer. “Dona Lourdes teve dificuldade de saúde durante um período muito longo, mas ela enfrentou todas essas dificuldades com muita coragem e muita sabedoria”, ressalta padre Rubens.

Catedral Sagrada Família

Sem sombra de dúvidas, um dos empenhos mais conhecidos de Dona Lourdes na Diocese de Campo Limpo está relacionado com as campanhas pela construção da Catedral Sagrada Família. A Diocese, criada em 1989 pelo Papa João Paulo II, tinha poucos recursos financeiros e toda uma estrutura administrativa e pastoral a ser edificada, dentre elas, a Catedral Diocesana. 

O terreno da Catedral foi oferecido por um empresário, mas havia muito a ser feito para a construção do complexo. “Na época da construção da Catedral, como o lugar era só mato e brejo, ela trazia os possíveis doadores para conhecer o lugar, depois dava um jeito deles se encontrarem com o Bispo na casa episcopal”, afirma padre Fábio Gomes, pároco da Paróquia Nossa Senhora Aparecida e São Lourenço, que desde o tempo de seminarista esteve bastante próximo de Lourdes.

Dona Lourdes teve muitas outras iniciativas, sempre empenhada na concretização de seu objetivo. Visitas a famílias conhecidas, jantares beneficentes, rifas, passeios de helicóptero e até mesmo um rodeio foram promovidos para angariar fundos. 

Padre Fábio recorda que nem sempre obtiveram sucesso: “Uma vez fizeram um evento no espaço da Catedral, mas foi um fiasco. Choveu, virou um barreiro, o som falhou, faltou energia elétrica. Foi horrível, mas até daquilo ela conseguiu tirar dinheiro”. O ritmo, porém, era sempre muito intenso, como relembra: “Tinha dias que a gente visitava muita gente, e tomava muito café, mas a doação era garantida”.

Os jantares promovidos por Dona Lourdes na Paróquia São Pedro e São Paulo proporcionaram a aproximação com muitas famílias que contribuíram para a construção, sobretudo das grandes vigas que dão sustentação à Catedral e que foram a parte mais cara da edificação.

“Os ingressos tinham preços razoáveis, mas considerados caros para a época, mas, inacreditavelmente todos eram vendidos e em muitas ocasiões mesas e cadeiras extras eram solicitadas . A parte ruim desses jantares era a de ajudar na cozinha, nós [seminaristas] precisávamos ajudar a moldar uns capeletes que ela gostava de fazer e muitas vezes eu ajudei a fechar um a um e precisavam estar ‘perfeitos’”, relembra padre Valdir Rodrigues, pároco da Santos Mártires.

Mas o empenho em conseguir fundos foi além da construção, como recorda padre Fábio: “Todo aquele conjunto de vasos dos santos óleos, o báculo do Bispo, a pintura dos painéis, bancos, tudo foi com essas campanhas que ela organizava”. 

Os seminaristas e padres adquiriram grande carinho e consideração pela dona Lourdes. Em não poucas situações, recorriam a ela, antes de ir ao bispo, para pedir conselhos ou mesmo descobrir a melhor maneira de convencer o bispo dos pedidos que desejavam fazer. “Ela era próxima de quase todos, sempre fez a ponte entre os padres e Dom Emílio, ligando, convidando pra um almoço, um café, uma ajuda pra fazer alguma coisa, e assim conseguia amizade dos padres e os mantinha perto do Bispo”, relembra padre Fábio.

Monsenhor José Geraldo relembra uma das célebres frases de Lourdes, que indicam seu amor pelas vocações sacerdotais e o amor pela Igreja: “esses meninos padres são como filhos". 

No mês de maio, Dona Lourdes teve a oportunidade de realizar a última viagem, como peregrina, até a casa da Mãe em Aparecida. “Hoje vejo como uma graça de Deus: antes da viagem para o céu, Deus lhe deu a oportunidade de se ‘despedir’ de Nossa Senhora Aparecida”, acrescenta o Monsenhor. 

Sepultamento

Na tarde do dia 28 de junho, Dom Luiz presidiu a Missa Exequial na Catedral Sagrada Família, com a presença do corpo de Lourdes. Concelebraram inúmeros padres que com ela tiveram estreito relacionamento. Ao final da celebração, o corpo foi conduzido até o cemitério Gethsêmani, onde foi sepultado. “Eu creio que Deus nesta madrugada colheu Dona Lourdes e está cuidando dela”, afirmou Dom Luiz durante a homilia. E ainda: “Deus não perde nenhum gesto de bondade que tenhamos feito”. Sem dúvidas, uma das características de Lourdes foi passar fazendo o bem.