fbpx

Mês da Bíblia: diretrizes para uma leitura orante e proveitosa da Palavra

Dom Luiz Antônio Guedes | Quarta, 08 Setembro 2021 12:06
Mês da Bíblia: diretrizes para uma leitura orante e proveitosa da Palavra

Estando no mês de setembro, considerado no Brasil como o Mês da Bíblia, pensei em apresentar um roteiro feito a partir de minhas anotações do livro “Leitura orante da Bíblia”, que acredito poderá auxiliar tanto na leitura pessoal como na leitura feita em pequenas comunidades que desejam saborear a Palavra de Deus e deixar-se guiar por ela. São quatro degraus ou momentos para fazer esse caminho proposto já no século XII pelo religioso Guigo, monge cartuxo.  

PRIMEIRO DEGRAU: A LEITURA

Busca conhecer, respeitar, situar. O que diz o texto? Ler muito para familiarizar-se com a Bíblia. Pronunciar bem as palavras. Se possível, ler em voz alta. Uma sugestão: ler o texto três vezes. Perseverar na leitura. Não depender do gosto do momento. A leitura orante exige da pessoa uma determinação constante e contínua. Este primeiro degrau visa buscar o sentido que o texto tem em si, independente de nós, em seu contexto de origem.

Qual é o seu gênero literário? Quem o escreveu? Por que? Para quem?, etc. Buscar conhecer o contexto histórico: que situações, fatos ou conflitos estão na origem do texto ou nele se refletem? Descobrir o que Deus tinha a dizer naquela situação histórica; o que Deus significava para aquele povo; como Ele se revelava; como o povo assumia e celebrava a Palavra do Senhor. A leitura bem-feita ajuda a superar o fundamentalismo. Se malfeita, ajuda a aumentá-lo. O fundamentalismo separa o texto do resto da vida e da história do povo e o torna absoluto como a única manifestação da Palavra de Deus.

SEGUNDO DEGRAU: A MEDITAÇÃO

O que é que Deus, através desse texto, tem a dizer hoje para nós, aqui em nossa realidade? O que diz o texto para mim, para nós? A meditação é o esforço para atualizar o texto e trazê-lo para dentro do horizonte da nossa vida e realidade, tanto pessoal como social.

O texto que foi escrito para nós deve falar para nós. “Ora tudo o que se escreveu no passado é para nosso ensinamento que foi escrito, a fim de que, pela perseverança e pela consolação que nos proporcionam as Escrituras, tenhamos a esperança” (Romanos, 15, 4). A meditação visa descobrir a “verdade oculta” ou valor permanente que existe no texto, o qual, embora tenha sido escrito em outra época, quer produzir no presente a mesma conversão ou mudança que produziu naquele tempo.

Procurar resumir tudo numa frase, de preferência do próprio texto bíblico, para ser levada conosco na memória e ser repetida e mastigada durante o dia, até se misturar com o nosso próprio ser. Imitar a atitude de Maria que conservava tudo em seu coração.

TERCEIRO DEGRAU: A ORAÇÃO

Suplicar, louvar, recitar. O que o texto me faz dizer ao Senhor? Quando fica claro o que Deus pede de nós está chegando o momento de se perguntar: “E agora, o que vou dizer a Deus? Assumo ou não assumo?” Quando, por exemplo, fica clara a nossa incapacidade e a nossa falta de recursos é o momento da súplica: “Senhor, levanta-te! Socorre-nos!” (Salmo 44, 27). Quando fica claro que Deus nos interpela através do irmão explorado e necessitado, está chegando o momento de unir nossa voz ao grito dos pobres para que Deus venha libertar o seu povo.

A atitude de oração diante da Palavra de Deus deve ser como aquela de Maria, que disse: “Faça-se em mim segundo a Tua Palavra” (Lucas 1, 38). A oração provocada pela meditação inicia-se por uma atitude de admiração silenciosa e de adoração ao Senhor. A partir daí brota a nossa resposta à Palavra de Deus. Nós não sabemos rezar como convém; mas o próprio Espírito ora em nós (Romanos 8, 26). A oração dos salmos ainda é a melhor oração. O próprio Jesus usou freqüentemente os salmos e orações da Bíblia.

Santo Agostinho diz que Jesus é o grande cantor dos salmos. Com Ele e n’Ele, os cristãos prolongam a Lectio Divina pela oração pessoal, pela oração litúrgica e pelas preces da Igreja. Dependendo do que se ouviu da parte de Deus na leitura e na meditação, a resposta pode ser de louvor ou de ação de graças, de súplica ou de perdão; pode ser até de revolta ou de imprecação, como o foi a resposta de Jo, de Jeremias e de tantos salmos.

Como na meditação, é importante que essa oração espontânea não seja só individual, mas também tenha sua expressão comunitária, em forma de partilha. A Lectio Divina acentua outro aspecto da oração: a sua ligação bem concreta com a vida, com a caminhada e a luta do povo. A Palavra de Deus vale não só pela idéia que transmite, mas também pela força que comunica. Não só diz, mas também faz. Na criação Deus fala e as coisas começam a existir (Salmo 148, 5; Gênesis 1, 3). “Dabar” significava ao mesmo tempo, palavra e coisa: diz e faz, anuncia e traz, ensina e anima, ilumina e fortalece, luz e força, Palavra e Espírito. Na Santíssima Trindade, eternamente o Pai pronuncia sua Palavra (o Filho) e coloca nela a força do seu Espírito. Encarnação. Ligar oração e vida. Não separar o que deve estar unido.

QUARTO DEGRAU: A CONTEMPLAÇÃO

Novo olhar sobre a vida, os fatos, a história, a situação do povo, sua caminhada. Enxergar, saborear, agir. É o ponto de chegada. É como a fruta da árvore que já estava dentro da semente: vai crescendo aos poucos, amadurece lentamente. Vivendo perseverantemente o processo: Leitura-meditação-oração, tendo tudo isto no coração, começa-se a ter um novo olhar para observar e avaliar a vida, os fatos, a história, a caminhada das comunidades, a situação do povo na América Latina, os pobres.

É o olhar de Deus sobre o mundo que assim se comunica e se esparrama. Este novo olhar (olhar com os olhos de Deus) é a contemplação. Novo olhar, novo sabor, nova ação! A contemplação envolve todo o ser humano. Ela não só medita a mensagem, mas também a realiza; não só ouve, mas coloca em prática. Não separa os dois aspectos: diz e faz; ensina e anima; é luz e força. A contemplação, como ponto final da escada, é patamar para um novo começo.

Sintetizando

“A leitura busca a doçura da vida bem-aventurada, a meditação a encontra, a oração a pede e a contemplação a saboreia. A leitura leva comida sólida à boca, a meditação a mastiga e rumina, a oração prova o seu gosto e a contemplação é a própria doçura que alegra e recria. A leitura atinge a casca, a meditação penetra o miolo, a oração formula o desejo e a contemplação é o gosto da doçura já alcançada”  (Monge Guigo).

Fonte: Livro “Leitura Orante da Bíblia” Coleção Tua Palavra é Vida 1 - Edições Loyola – Publicações CRB/1990