Mário Sérgio Cortella: Será?

Um dos mais populares intelectuais brasileiros, Mario Sergio Cortella, partilha com muito bom humor sobre a docência, a filosofia, e sobre suas redes sociais, será?

Andrea Rodrigues | Quinta, 12 Dezembro 2019 19:08
Mário Sérgio Cortella: Será? Pe. Rodrigo Antônio da Silva

Com sorriso largo e passos lentos, devido à recuperação de uma cirurgia recente no joelho, este jovem senhor, londrino, casado com uma Libanesa Ortodoxa, chega ao camarim preparado com exclusividade para recebê-lo agitando o ambiente. Com a simpatia que é uma marca e a voz firme e bem empostada, vai cumprimentado a todos que encontra pelo curto trajeto e se senta sem cerimônia para conceder esta entrevista contando um pouquinho da sua trajetória docente e filosófica.

Mário Sérgio Cortella, 65 anos, configura a lista dos filósofos pop’s da atualidade. Com mais de seis milhões de seguidores em suas redes sócias, 42 livros publicados, não perde uma chance de interagir com quem o aborda sempre ensinando algo, ainda que brinque o tempo todo.

O professor, como quis ser apresentado no evento organizado pela Pastoral da Educação e Ensino religioso da Diocese de Campo Limpo, contou na entrevista a seguir sobre os desafios da educação, sobre sua vida acadêmica, seus livros, sua ligação com a natureza.

Revelou ainda sobre o que a sua experiência de três anos, na Ordem dos Carmelitas Descalços, deixou de legado na composição da sua personalidade.

 

Desafios da educação

A educação é um dos temas mais recorrentes das suas palestras, porque falamos tanto em educação?

R. Nós não nascemos prontos, então nós temos que ser formados. A nossa formação não é determinante, isto é, uma família pode até formar alguém na direção da decência e da convivência solidaria, que aquele indivíduo assim será afinal ela é livre, por tanto, a pessoa pode escolher quando adulta. Também ao contrário, não é porque uma família descuida da educação, que alguém estará determinado a seguir um caminho que não seja benéfico. Claro, a chance é muito maior quando a educação se dirige por um campo efetivo de formação da decência coletiva, neste sentido, todas às vezes que uma nação encontra dificuldades e impasses o tema da educação ele vem à tona.

No entanto em nosso país, há uma conversa muito cínica em relação à área da educação escolar, porque o tema parece quase sempre em períodos de organização eleitoral e depois há certa amnésia nos intervalos dos grandes pleitos, portanto, o que precisa fazer e o que se faz, é deixar viva a temática.  O assunto precisa sempre estar vivo neste sentindo, eventos como este, onde se tem tanta gente para pensar no tema e sinal de uma recusa a desertificação daquilo que é o sentido da palavra educação.

 

“Sempre se fala muito sobre o que é importante na educação, mas não se faz tanto, se mais se fizesse, não seria preciso falar tanto”.

 

Para o senhor o que é o desafio de educar?

R.A minha intenção nunca é fazer uma reflexão do ponto de vista técnico, isto é, falar sobre a necessidade da democratização da ciência e da permanência de uma qualidade de ensino, de metodologia de financiamento, de participação em relação a gestão escolar, isso tudo é importante, mas a intenção mais densa é refletir sobre a marca daquilo que é a ação do educador ou da educadora na constituição deste tipo de sociedade em que a gente tenha uma outra condição de existência, e está aí, a necessidade de todos nós termos como desafio principal romper as nossas próprias limitações.

Quem atua em educação precisa ter humildade intelectual. Entender quais são os tempos que vivemos hoje e especialmente quais são as competências que nós temos que desenvolver. O desafio mais forte é o de fazer com que a gente não entre em desalento. Não é incomum que alguns percam um pouco do fôlego nesta prática, por isso a noção de esperança deve ser recuperada no seu sentido original. Veja,  Diocese tem a esperança nesses seus 30 anos como sendo um dos seus horizontes,  a noção de esperança é aquela que te dá fôlego, portanto, que te enche de vida e esse é o desafio mais central.

 

O educador (a) deve então estar com o espírito preparado para superar os desafios?

R. A preparação técnica é necessária. A boa intenção isoladamente tem lugar de plenitude até no submundo, mas, de nada vale o envolvimento na preparação técnica se ele num tiver uma motivação, isto é, uma porta interna que abra para o propósito daquilo que se quer alcançar. A melhor preparação se dá quando ela tem clareza de qual é o propósito. Se o propósito é a construção de uma vida em coletividade que seja abundante para todos e todas, é evidente que neste caso, a preparação técnica virá como um adicional.

 

O que o senhor tem a dizer sobre o Ensino Religioso?

R. Os países organizam a noção de ensino religioso de um modo muito diverso. Você tem nações como à Alemanha em que não só, o ensino religioso é obrigatório, como ele é financiado pelo poder público a partir das confissões religiosas especificas, isto é, na escola pública a família pode escolher qual dos componentes religiosos a criança terá, inclusive a não religiosidade, a possibilidade da descrença.

A outras nações em que ele aparece como absolutamente ausente. A nossa constituição estabelece que o ensino religioso não seja catequético e nem doutrinário, portanto, o trabalho será com a questão da religiosidade dentro da cultura e  neste sentido é muito positivo. 

Quando se prepara a pessoa para que não olhe a religião como sendo algo de natureza ideológica, isto é, que marque uma única seara de sequência, afinal uma escola publica é uma escola publica e a república é laica, ela não é ateia, mas é laica, significa que ser laico sugere que o poder público não pode nem favorecer nem desfavorecer qualquer tipo de religião ou crença, neste sentido a formação de pessoas que tenha essa compreensão é muito especial.

Toda vez que o ensino religioso se coloca na trilha doutrinária, catequética, ele acaba descumprindo uma das tarefas da escola. O conhecimento sobre religião não pode se ausentar da escola, mas ele não pode ser de maneira alguma confessional, no sentido mais restrito porque isso romperia a própria lógica de uma organização, religião é uma questão privada, portanto não é o que o poder público deva desfavorecer e nem favorecer.

Digital Influencer

O senhor é considerado um dos intelectuais contemporâneos mais influentes. Como o senhor se sente sobre isso?

R. Eu gosto, eu sou docente, eu passei a vida me preparando para me comunicar, para que eu fosse capaz de ter uma presença pública. O mundo hoje oferece uma fama ainda maior, mas fama não significa importância, tem muita gente que é importante e não é famosa, como tem muita gente famosa que não tem a menor importância.

Parte da minha fama se deve ao fato de eu estar nas redes sociais, na mídia televisiva e radiofônica, quero que a fama agregue importância a minha existência. A fama em si é passageira, ela vai embora como o vento, mas a importância permanece.

A tarefa do que a gente chama de intelectual público, é muito relevante. Eu fiquei 35 anos na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e desses 35 anos, trinta também no departamento de Teologia e Ciência da Religião, portanto, uma universidade que nasceu nesta cidade para que ela pudesse dentro da comunidade também oferecer à ciência, a religião, a arte e a filosofia como componente de uma existência conjunta.  Nesse sentindo, o fato de hoje eu ser um intelectual, um ‘digital influencer’, um ‘youtuber’, serviu para aumentar meu território de sala de aula.  Em uma sala na PUC eu tinha 50 alunos, agora eu tenho um Instagram com três milhões e setecentos mil seguidores, além do Facebook que me dá um total de seis milhões nas redes sociais, mas, isso não significa que eu tenha me tornado importante, para algumas pessoas sim, mas não com a relevância que de fato minha alma queira se fazer presente, eu tenho uma trajetória longa ainda.

 

“Se você encontrasse Deus o que diria? Eu queria que Ele dissesse: nossa como você demorou”.

Livros

Alguns livros do senhor são classificados como auto-ajuda. Filosofia é auto-ajuda?

R. Às vezes é. O grande nome da filosofia no passado, Sócrates, tem em seu grande lema ‘Conhecer-te a ti mesmo’, isso é auto ajuda. O que mudou na história não é o conceito de auto-ajuda e o conceito do que serve e do que não serve na auto-ajuda. Eu não tenho nenhum tipo de dificuldade se me disserem: você faz livros de auto-ajuda. Existe auto-ajuda boa e ruim, assim como literatura, romance, eu sinceramente não me sinto ofendido. Às vezes as pessoas usam a expressão como desqualificação, mas veja, se eu fiz um livro ruim, ele tem que ser desqualificado, se o livro é bom e for de auto-ajuda, ele vai ficar melhor ainda, desde que as pessoas se sintam ali acolhidas. Eu tenho 42 livros publicados, uma parte deles é bastante boa e a outra não é, e como é que eu avalio? Eu escrevi um livro, dos mais antigos que tem um milhão de exemplares vendidos ‘Qual é a tua obra’. Este livro tem uma presença muito forte porque ele fala de ética e quando as pessoas se aproximam de mim e me dizem, eu estava num momento muito complexo e o livro me auxiliou, então eu fico muito feliz. Mario Quintana meu grande inspirador na área da inscrita dizia: “Quando o leitor tem que perguntar ao autor o que ele quis dizer com isso então um dos dois é burro”. Eu costumo achar que sou eu que sou burro, se o leitor não entende direito o que eu quis dizer eu fui incompetente.

Para vários de nós que somos desse circuito mais midiático, chamados ‘filósofos pop’s’, existe uma vantagem. Cada um de nós fez carreira na universidade, somos professores titulares, temos doutorado. Eu mesmo passei por cinco bancas antes de chegar até aqui, pessoas de várias universidades me examinaram, tive que ter produção. Eu não estava passando e vi a porta aberta entrei e comecei a falar [risos], eu tenho uma carreira. Se eu não tivesse essa trajetória acadêmica, pessoas diriam não só que é auto-ajuda, diria que é péssima auto-ajuda.

 

Ordem dos Carmelitas Descalços

Que herança ficou da sua experiência na Ordem dos Carmelitas Descalços?

Eu sempre quis fazer uma experiência de religiosidade que fosse mais intensa, quando eu tinha 16, 17 anos decidi por isso. Minha família é de tradição e formação católica, embora uma parte seja cristão reformado, eu sempre convivi dentro do catolicismo de uma maneira muito intensa.  Nesta época  eu prestei vestibular e entrei na  faculdade de Filosofia, que era o que eu queria fazer e entrei na Ordem dos Carmelitas Descalços, onde fiquei por três anos. Depois deste tempo eu achei que aquilo que eu desejava já era suficiente para a docência.

 

“Como Carmelita Descalço o altar é um lugar que eu sei andar direitinho, quase fui sacerdote”.

 

Da Ordem eu trouxe, por exemplo: a noção de disciplina, de organização no trabalho, da partilha da vida comunitária, da diversidade. Éramos em muitos e de todos os tipos, desde monges com 82 anos, como jovens como eu, na época com 18 anos. Brasileiros eram dois, mas lá tinha gente vinda de muitas partes da África, da Itália e outros países. Essa diversidade de compreensões me ajudou muito com relação a convivência, na noção de religiosidade, como sendo algo muito marcante, não necessariamente religião para mim, mas religiosidade sem dúvida, é como um trajeto. A maior herança que eu recebi dentro da vida conventual é a reverência pela vida, ela ficou muito mais exuberante.  Eu vim do interior do Paraná, portanto muito ligado a natureza, faz 52 anos que estou em São Paulo e aprendi que a flor sempre vence o asfalto.